segunda-feira, 4 de março de 2013

O tema da sustentabilidade e as visões economicistas e/ou ambientalistas

Ver. Padre Wilson Lill

Sustentabilidade é a palavra do momento, da moda, das hostes políticas e midiáticas. Crescer, distribuir, sustentar... continuar a crescer sem colocar em risco o meio ambiente. Esse é, talvez, o desafio mais premente da atualidade. Isso é possível ou é utopia pura e simples? O que não é possível é fazer uma economia crescer sem produzir na esteira desse acontecimento chamado impacto ambiental e emissão de gás carbônico. Nos últimos cem anos da história, a produtividade aumentou significativamente, prosperou o capitalismo, diversificou-se a capacidade produtiva, mas a que preço? Elevaram-se consideravelmente as emissões de carbono entre outros. Porém, é sabido que nenhuma população e nenhum padrão de vida elevado se sustentam indefinidamente. Em algum momento, os limites vão surgir. Quais seriam esses limites diante do mais urgente desafio de construir uma economia de baixa emissão de carbono?
Talvez o primeiro limite a ser considerado seja de ordem conceitual. Ou seja, é preciso entender de uma vez por todas que a economia não pode conquistar tudo e todos. Desejando medir desempenho econômico pelas lentes exclusivas da ciência econômica, ao menos duas variáveis precisam ser consideradas, a saber: o aumento da renda per capita e familiar e a possibilidade de assegurar a continuidade da vida.
A primeira variável é de conhecimento e de domínio de qualquer economista minimamente atento ao contexto hodierno. Por outro lado, a segunda, os economistas - com raras exceções - tem tido dificuldade em assimilar tal prerrogativa, uma vez que é comum alguns ignorarem as leis da natureza, assim como os ecologistas tendem, por sua vez, a não considerar os mecanismos econômicos.
Desenvolvimento, no dicionário da vida, significa, a grosso modo, organizar socialmente a economia para efetivar-se o acesso ao mínimo indispensável para bem viver. Urge, nesse sentido, enfatizar que por trás da ideia de desenvolvimento encontra-se nitidamente o objetivo precípuo da ciência econômica: atingir bem-estar. Essa visão intenta sempre a busca do crescimento quantitativo. Porém, parece que o importante em matéria de qualidade de vida e de economia social e ambiental saudável, responsável e sustentável não é um crescimento quantitativo pura e simplesmente, mas sim qualitativo.
Um segundo aspecto de ordem conceitual que decorre do ponto sobre o qual estamos discorrendo diz respeito a não mais submeter-se simplesmente a ordem imperante na macroeconomia. Enquanto a ordem da macroeconomia é crescer, a ordem da ecologia é viver sem sobressaltos, sem ameaças. A lei básica dos compêndios macroeconômicos é buscar o aumento incessante do consumo, conquistar novos mercados. O imperativo ecológico parece ser simples, porém objetivo: respeitar as leis da natureza para assegurar a possibilidade da vida. Inverte-se a lógica; trata-se, não a partir da falta, da escassez, do limite, mas da possibilidade real que é o próprio ser humano capaz de se superar e de se conscientizar e de se mover na busca do equilíbrio.
 
 É preciso compreender que um sistema econômico para promover qualidade de vida não necessariamente precisa aumentar de tamanho. É preciso vencer a fobia do crescimento ilimitado. Não há magia nisso. O que precisa ocorrer é planejamento e opções políticas que deem suporte ao planejado. Isso não fere mortalmente os objetivos das economias que ainda encontram-se atrasadas em matéria de desenvolvimento, cuja maioria da população passa privacidade nos termos mais básicos para a melhoria de vida e que precisam ver prosperarem a capacidade produtiva para a promoção do resgate dos mais necessitados. Isso faz parte. Porém, em muitos casos, melhoria da qualidade de vida passa pela ideia da distribuição do que já está produzido, rompendo, para isso, com os imperativos da concentração advindos das ideologias puramente mercadológicas que tendem a afogar a vida no mar do consumo. Não necessariamente passa, portanto, por produzir mais, mas sim por desconcentrar, distribuir o que está restrito ao acesso de poucos. Isso, com certeza, envolve decisões políticas e mexe com as ideologias.
Do lado das economias mais ricas, os limites esbarram nas ações individuais e coletivas fortemente arraigadas à “ditadura do consumo” conspícuo . Mexer nesses paradigmas será tarefa complexa.

Um impedimento do que estamos argumentando encontra-se na própria dinâmica interna do sistema de produção e organização do capitalismo. Enquanto essa estiver, sobremaneira, balizada na criação de necessidades materiais, muitas vezes de cunho puramente artificial, será difícil levar à prática comum de que a economia apresenta limites para essa continuidade desenfreada que corre às soltas no mercado consumidor. Sempre haverá alguém disposto a defender a ideia de que o planeta, pelo lado do conhecimento tecnológico, num belo dia qualquer, dará conta de todas as necessidades materiais. Isso nos parece uma falácia perigosa.
Os que assim pensam são categóricos: é necessário fazer a economia crescer; é imperativo que a prosperidade se expanda, pois há de se resgatar os que ainda se encontram abaixo das linhas de pobreza e indigência. Infelizmente, esses são os que mais ignoram as leis da natureza. Não sabem que não é o planeta que está em perigo, mas a nossa raça. Se alguém um dia irá acabar, seremos nós, e não o planeta que saberá viver sem seus (nós) moradores incômodos. Os que ignoram a problemática ambiental, não se dão conta que a atmosfera do planeta está abafada por um manto de gás com 800 bilhões de toneladas de carbono, segundo dados do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Não se dão conta ainda de que isso provocará, até 2030, a elevação da temperatura em mais 2°C. Os apedeutas insistem em dizer que isso se trata de retórica; os sábios estão conscientes de que pode se tratar de catástrofe.
Por fim, esses que ignoram a questão ambiental e fazem coro à perspectiva de que crescendo iremos por fim às dificuldades sociais, se equivocam ao não olhar o histórico do país. Por qualquer régua que se meça, nosso histórico é de muito crescimento, mas de pífio desenvolvimento social coligado a um profundo desrespeito para com a questão ambiental.
Marcus Eduardo de Oliveira diz que nos últimos cem anos o PIB brasileiro cresceu quase 150 vezes, mas, em pleno século XXI, em que pese consideráveis avanços patrocinados pelo governo que ora fecha suas portas, ainda se contam 30 milhões de famintos num país dono do maior rebanho bovino do mundo. Em decorrência desse crescimento sem desenvolvimento com agressão ambiental, apenas nos últimos 40 anos, 18% da Floresta Amazônica foi destruída. Essa patologia ambiental dos últimos anos, responsável por 75% da emissão de gás carbônico, decorre do desmatamento. Moral da história: fizemos a economia crescer, melhoramos a vida de uns poucos e relegamos 15% de nossa gente a uma condição de vida miserável. Na somatória dos fatos, ainda "matamos" quase 20% da nossa Floresta. Quem está em perigo mesmo?
A visão de Marcus parece pessimista, mas não pode ser olvida nos planejamentos políticos, econômicos e nas ações do terceiro setor enquanto busca de cuidado e preservação da vida.

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